domingo, 12 de setembro de 2010

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A história de Camilia Shehata, Desaparecida há dois meses por ter se convertido do cristianismo ao islamismo, pôs em evidência a intolerância religiosa e a dificuldade para mudar de religião no Egito.
Nas últimas semanas, seu caso se transformou em notícia nacional e em pretexto para a organização de manifestações por parte de coptas (cristãos do Egito) e muçulmanos, que culpam uns aos outros pelo desaparecimento.
Camilia, 25 anos, se converteu ao Islã no início deste ano e desapareceu em julho, quando foi se registrar na mesquita de Al-Azhar, uma das principais instituições do islamismo sunita, segundo depoimento do xeque Abu Yehia, que a ajudou a se tornar muçulmana. Abu Yehia contou à imprensa egípcia que, no momento da conversão, Camilia foi detida pelas forças de segurança e levada a um mosteiro, acusação negada pela Polícia e pelas autoridades religiosas.
Embora o único fato evidente até agora seja que Camilia está desaparecida, cada credo tem a sua versão: enquanto alguns coptas asseguram que ela nunca quis se converter, há muçulmanos que defendem que a mulher foi raptada e castigada pela Igreja por ter assumido sua devoção ao Islã.
De acordo com a diretora do Congresso Americano-Islâmico, Dalia Ziada, "é muito estranho como os dois grupos levaram a situação a este grau".
De fato, "já não se trata de Camilia, mas de demonstrar que uma religião supera a outra. É o ódio que foi introduzido nos corações dos egípcios durante os últimos anos devido ao aumento de islamitas fundamentalistas e de extremistas coptas", disse a ativista à Agência Efe.
Apesar do caso de Camilia, o advogado copta Naguib Gobraiel explicou que, legalmente, os cristãos têm mais facilidade para mudar de religião que os muçulmanos, embora sofram igual pressão de suas famílias e comunidades, que podem chegar a excluí-los de seu círculo.
"Ambos os lados sofrem", observa Dalia. "As pessoas e as instituições eclesiásticas armam um escândalo contra qualquer um que mude de religião, e o Governo faz pouco para protegê-las".
Gobraiel, que não acredita que Camilia tenha se convertido e atribui a polêmica a meros rumores, indicou que o Egito "tem uma lei desigual, que castiga os muçulmanos que querem ser cristãos e, ao mesmo tempo, permite a conversão ao contrário, sem problemas".
Nesse sentido, os muçulmanos que se convertem ao cristianismo, em torno de mil pessoas por ano, segundo o advogado, têm de fazê-lo em segredo, porque correm o risco de serem detidos ou, até, assassinados por suas próprias comunidades, que aplicam a versão mais rigorosa da sharia (lei islâmica).
"O 2º artigo da nossa Constituição afirma que a sharia, que estipula que qualquer muçulmano que queira se converter ao cristianismo deve ser assassinado, é a base principal de toda a legislação no Egito", disse à Efe o advogado, sentado atrás dos símbolos cristãos que enfeitam sua escrivaninha.
Além disso, "em assuntos pessoais, os juízes egípcios agem de acordo com as suas crenças, e não conforme à lei. Qualquer um que diga que há democracia ou liberdade religiosa no Egito mente".
Dalia, por sua vez, considera que o problema da sociedade egípcia "é que ambos os lados tratam de fazer o papel de Deus e decidir pelas pessoas a religião que devem ter".
O culto é um símbolo de identidade tão importante no Egito que deve estar inscrito, inclusive, na carteira de identidade de seus cidadãos.
E trocá-lo é muito difícil, como sentiram na pele os dois mil muçulmanos convertidos ao cristianismo, defendidos por Gobraiel nos últimos quatro anos e "que não puderam obter sua carteira de identidade com a mudança de religião", diz o advogado.
A história de Camilia acentuou estes problemas, se transformando em um motivo para que muçulmanos, que exigem a libertação dela ao papa copta Shenouda III, e coptas, que se manifestam contra o suposto sequestro, saiam às ruas para demonstrar sua contrariedade.
Para Dalia, o ódio que mostram os egípcios em seus protestos se agrava com a crise política e econômica do país, de modo que "dificilmente a população se detém perante a oportunidade de mitigar seu estresse gritando de raiva".

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